Revista n°. 10
REVISTA DO HOSPITAL ESPANHOL N° 10
Índice
- EDITORIAL
- MENOPAUSA, HORA DE DAR A VOLTA POR CIMA
- BALANÇO DA GESTÃO: MUITA LUZ NO FIM DO TÚNEL
- FONOAUDIOLOGIA COMO SINÔNIMO DE BEM ESTAR
- CONQUISTA DE ESTATUTO DEIXA IDOSO MENOS SÓ
EDITORIAL
Ética e qualidade em primeiro lugar
Não é nada fácil sobreviver numa sociedade que quantifica todos os
valores, transformando-os em mercadorias. O cenário é de uma guerra
diária para não aderir à corrente; um exercício de resistência e
determinação. E essa batalha tão difícil e desgastante afeta não só
indivíduos, como instituições.
Na parte que nos cabe enquanto dirigentes da Sociedade Espanhola de
Beneficência, procuramos, diante do dilema, manter uma gestão sensível
às demandas dos sócios e da comunidade, integrada, mas viabilizando, ao
mesmo tempo, o crescimento, a credibilidade, a transparência e a
solidez do Hospital Espanhol. Nestes quatro últimos anos, o grande
desafio esteve em conciliares opiniões e interesses divergentes (que
sempre vão existir), sem abrir mão da conduta ética e da opção por
qualidade; controlar com eficiência a máquina administrativa e
operacional da entidade; gerir realizando e divulgando, porém sem
ostentações; ter humildade de saber ouvir e atuar com senso de
oportunidade - nunca oportunismo. Acho que conseguimos "tocar o barco",
como popularmente se fala, com a consciência de que não basta
atravessar o rio: é preciso domesticar a correnteza.
Em se tratando de saúde, a questão torna-se particularmente delicada,
pois o país assiste ao sucateamento gradativo de toda a rede hospitalar
pública e até mesmo privada. Há uma total precariedade no atendimento e
nos serviços oferecidos, que atinge, sobretudo, os menos favorecidos,
pessoas que tão cedo não terão acesso à prevenção, a tratamentos da
medicina moderna e a exames sofisticados. Essa realidade nos levou a
pensar e a pesar o problema de modo que pudéssemos equilibrar custos
com um funcionamento ágil e otimizado. Reformamos, então, o SEB Saúde,
e seguimos adotando uma série de medidas que se faziam necessárias.
Entre elas, a reestruturação de instalações físicas e da equipe médica,
a construção de algumas unidades, a mudança em vários procedimentos, a
compra de equipamentos e materiais, a assinatura de convênios, a
capacitação dos profissionais, a contenção dos gastos supérfluos e
outras. Assim, pinçamos as prioridades, tiramos do papel nossas metas e
chegamos à reta final com a sensação de dever cumprido, sempre
assentados em dados reais, e não em estatísticas meramente
ilustrativas.
Neste número da revista que corresponde ao último de nossa gestão,
podemos afirmar que o Hospital Espanhol pisou no futuro, sem
descredenciar seu passado, e que representa um patrimônio coletivo
pronto a superar-se e a atingir níveis de excelência. Isto se deve
tanto a nós, diretoria, como a sócios, médicos, enfermeiros,
assistentes, coletividade, parceiros e colaboradores em geral. Por
isso, aproveitamos esta oportunidade para agradecer o apoio de todos e
dividir os frutos de nossas conquistas, reafirmando 0 orgulho de termos
conduzido uma instituição que sabe honrar seus compromissos e caminha
lado a lado com a luta pela cidadania.
José Paredes Gerpe
MENOPAUSA, HORA DE DAR A VOLTA POR CIMA
Um dia, quando menos se espera, ela chega. Mas o tão sonhado alívio
com o fim da menstruação às vezes dura pouco. Na maioria dos casos, a
mulher percebe que a entrada na menopausa também representa uma série
de incômodos, que podem ser até mais intensos do que os experimentados
no período de ovulação.
Hoje, com tantos avanços na medicina e novos tratamentos, é possível
não fazer da menopausa uma inimiga feroz? Podemos conviver com ela sem
angústia e infelicidade? Com explicações simples e objetivas, a
ginecologista e obstetra Mônica Pimental Divan, do Hospital Espanhol,
responde a perguntas clássicas sobre este assunto, mostrando que,
apesar dos pesares, há sempre uma alternativa viável para todas as
mulheres na hora da menopausa.
Revista: Existe uma idade certa para a mulher encerrar seu ciclo
menstrual?
Mônica: Em média, a brasileira começa o processo entre 48 e 50 anos. É
o chamado "climatério" . Nessa fase, a menstruação fica instável, vem
em menor ou maior fluxo, até que acontece a menopausa propriamente
dita, ou seja, a última menstruação. Antes disso, só se for menopausa
precoce, em função de problemas hormonais ou da retirada dos ovários.
Mas, nos países mais frios, a menopausa geralmente ocorre mais cedo.
Condições climáticas e fusos horários têm influência em um bocado de
fenômenos, até no nosso humor.
Revista: Por que a mulher pára de menstruar?
Mônica: Com o passar dos anos, o folículo ovariano vai diminuindo, e é
ele que produz os hormônios que regem o ciclo menstrual estrogênio e
progesterona. A mulher passa a não descamar mais. Mas nós, médicos, só
consideramos que a menopausa se estabeleceu após a mulher estar um ano
sem menstruação.
Revista: Quais são os desconfortos mais comuns e por que algumas
mulheres não os sentem?
Mônica: Os mais corriqueiros são ondas de calor, frio, suores noturnos,
insônia, instabilidade de humor, inquietação e uma certa depressão. A
diferença de sintomas entre uma e outra mulher pode estar na própria
fisiologia delas (da mesma forma que apenas alguns organismos
manifestam determinado problema ou doença) ou no aspecto neuropsíquico,
pois as emoções afetam bastante a intensidade e a persistência do que
sentimos. Nada na vida é isolado. Há também questões como a obesidade,
as taxas etc.
Revista: Qual a primeira providência quando a menstruação começa a
falhar?
Mônica: O médico deve acompanhar a paciente desde o climatério e, no
momento certo, solicitar exames sobre perfil lipídico (gorduras) e
tiroideano, condições hormonais e outros. A partir daí, se a mulher
desejar, entra-se com um tratamento de reposição de hormônios. Mas é
importante ressaltar que, de jeito algum, o profissional deve impor
este ou aquele caminho à paciente. Juntos, devem conversar a respeito
do que ela deseja para si e escolherem a melhor conduta. O que é bom
para umas, não funciona em outras, certo? E, muitas vezes, a primeira
tentativa não se mostra a mais eficaz, havendo necessidade de se buscar
uma segunda ou terceira solução. Sempre digo que o ginecologista é um
pouco terapeuta, pois, numa fase como a da menopausa, ele tem que
procurar entender o perfil da mulher que está solicitando seus
serviços. Pode ser aquela pessoa que viu os filhos crescerem e saírem
de casa, e se sente muito só. Então, mais do que tratar da menopausa,
terá que lidar com o emocional de sua cliente.
Revista: Sem reposição hormonal, que problemas de saúde a mulher corre
o risco de contrair ?
Mônica: Inúmeros. Entre eles, problemas arteriais, coronarianos e
ósseos, e ainda perda de memória, atrofia vaginal e desânimo, que se
traduz, inclusive, na falta de apetite sexual. Um exemplo: assim como o
sol, que atua na síntese da vitamina D, responsável pela fixação do
cálcio em nosso organismo, o estrogênio também ajuda a fixar o cálcio.
Isso revela a importância dos hormônios e de haver um equilíbrio no
nosso corpo. A questão óssea é bastante grave, porque afeta não só o
paciente e seus familiares, mas a própria economia do país. A cada dia,
surgem novos casos de pessoas incapacitadas para o trabalho em razão de
doença dos ossos. E esse mal é mais freqüente entre pessoas da raça
branca, sobretudo as que não tomam sol e não fazem exercicios.
Revista: Quais são as formas de reposição hormonal possíveis?
Mônica: Há algumas, mas todas possuem um lado positivo e outro
negativo. A reposição com estrogênio, por exemplo, é feita sem danos
numa mulher que não tem útero. Mas, se tiver, o estrogênio pode causar
hiperplasia do endométrio (sangramento irregular pós-menopausa). Tudo
depende, às vezes, da dosagem recomendada. Até mesmo o androgênio
(testosterona), hormônio masculino, pode entrar na reposição hormonal.
Existe, ainda, a reposição que combina estrogênio com progesterona, mas
o segundo, ao mesmo tempo que protege o útero, expõe a paciente ao
risco de mitoses celulares na mama, que podem degenerar para um câncer.
Quando optamos por uma terapia assim, precisamos monitorar a paciente
com certa rigidez, e ela mesma tem que estar consciente dos benefícios
e dos malefícios prováveis. Particularmente, prefiro a reposição por
adesivos (via transdérmica), que evita a passagem do hormônio pelo
fígado. Contudo, independentemente da terapia, mulheres com
antecedentes de câncer de útero ou mama ou que apresentam histórico da
doença na família precisam de um acompanhamento todo especial.
Revista: O início da terapia de reposição hormonal gera
mal-estar?
Mônica: Quase sempre, a mulher se sente como se estivesse ovulando de
novo, com dor no baixo ventre e aumento das mamas. E, em determinados
casos, pode, de fato, voltar a menstruar. Mas, com o tempo, o organismo
se adapta às mudanças, cessam os desconfortos e os benefícios aparecem:
mais vitalidade e ânimo, pele mais bonita, auto-estima renovada. Quanto
mais cedo a reposição começar, menos choques a mulher vai sofrer. Vale
ressaltar, porém, que não adianta adotar a terapia tardiamente, pois,
após uns cinco anos sem menstruar, o corpo da pessoa se acostuma e a
reposição, então, passa a não ser mais recomendada. Poderá haver mais
contra-indicações do que benefícios. Isso se aplica também a pacientes
na faixa dos 55 anos, geralmente já portadoras de uma osteopenia ou de
osteoporose.
Revista: E a terapia á base de isoflavona ?
Mônica: Os resultados obtidos com as isoflavonas (que fazem parte do
grupo dos fitohormônios) não se comparam aos dos hormônios sintéticos.
Estes reproduzem os estrogênios naturais da mulher de uma forma muito
mais efetiva. Por outro lado, não existe qualquer trabalho na área
médica mostrando a eficiência da isoflavona na prevenção de fraturas
ósseas e outros males. Considero que possa apenas aliviar sintomas e
ser uma coadjuvante no tratamento. De todo modo, a medicina é um campo
muito vasto e nem sempre existe consenso. Há várias questões sendo
pesquisadas e debatidas por especialistas e, de um minuto para outro,
nosso ponto de vista pode ser alterado.
Revista: Então há exagero quando dizem que as mulheres chinesas passam
ilesas pela menopausa por consumirem muita soja?
Mônica: A soja ajuda como um todo, mas não creio ser possível associar
seu consumo à ausência de sintomas na menopausa e à qualidade de vida
da mulher após os 50. O chá de amora, por exemplo, que encontramos na
isoflavona, pode influenciar na libido, na atrofia vaginal e até na
capacidade de trabalho, mas é só parte de uma solução bem maior e mais
complexa.
Revista: Pelo visto, cada caso é um caso. Mas, em geral, a evolução da
medicina tornou os efeitos dos tratamentos mais leves?
Mônica: Com certeza. Os laboratórios estão se preocupando em produzir
remédios sem os possíveis efeitos colaterais, como dores de cabeça,
inchaços etc. Também se preocupam em misturar os compostos, aliviando
os efeitos negativos de um e outro, e dosá-los da melhor maneira. Mas
torno a repetir que cada mulher tem de achar seu caminho particular
para enfrentar a menopausa de uma forma sadia e natural, sem estresse.
Receita dada por amigas ou vista em alguma lugar não adianta.
BALANÇO DA GESTÃO: MUITA LUZ NO FIM DO TÚNEL
Administrar uma instituição de saúde num país de grandes contrastes
sociais, como 0 Brasil, não é nada fácil. Mas, há duas gestôes - cerca
de quatro anos -, José Paredes Gerpe vem enfrentando esse desafio. Ele
preside a Sociedade Espanhola de Beneficência (SEB), mantenedora do
Hospital Espanhol, que se firmou perante a classe médica e a sociedade
como uma entidade séria e competente, marcada por grandes lutas e
avanços.
Prestes a encerrar seu mandato de 2002 a 2004, Paredes concedeu uma
entrevista onde faz um balanço das principais realizações de sua
diretoria e aponta problemas ainda a serem enfrentados.
Revista: O que o senhor destaca como uma mudança significativa feita em
sua gestão?
Paredes: A concentração da administração em um único prédio,
facilitando todos os trâmites e agilizando as ações. Mas o marco, sem
dúvida, foi a construção da Emergência, até então restrita a uma sala,
onde tínhamos que dar conta de vários pacientes simultaneamente. Hoje,
as dependências da Emergência dispõem de uma sala principal de repouso
com três leitos, uma outra com dois leitos, uma sala de curativos e uma
sala para parada ou de grande emergência, inaugurada em 2002. Ali o
doente recebe os devidos cuidados, com o que há de mais moderno, e, se
for o caso, é encaminhado a especialistas no próprio hospital. O
investimento pesado na Emergência vem produzindo bons frutos, diretos e
indiretos, pois, nas redondezas, o Hospital Espanhol tem o melhor
serviço, nessa area.
Revista: A construção da Emergência estava entre suas
prioridades?
Paredes: Além de estar, ela se apresentava como alternativa para
aumentarmos nossa receita e, com isso, podermos administrar as crises,
já que todos os hospitais particulares trabalham com uma tabela de
custos defasada. No nosso caso, ainda havia o agravante de trabalharmos
com muitos serviços terceirizados, que, no início, alavancam
resultados, mas oneram o orçamento no decorrer do tempo.
Revista: Como alguns desses custos foram contidos?
Paredes: Tivemos que fazer um controle rígido dos gastos, identificando
excessos e desperdícios em todos os setores. Isso implicou a redução do
número de funcionários administrativos, otimização das rotinas e uma
série de outros procedimentos, visando a adaptação às novas exigências
do mercado. Ou seja, o hospital não pode elevar os preços de seus
serviços à altura de suas necessidades, mas precisa oferecer
atendimento de qualidade. Eis o dilema. A instituição tem que se
renovar a cada ano, se superar, sob pena de ser riscada do mapa.
Revista: Há muitos entraves à essa renovação?
Paredes: O principal deles é o corporativismo, que toda instituição
tem. Temos de acabar com a idéia de que gerimos um negócio como um fim
em si mesmo, para nós próprios. Nada disso: o negócio deve servir aos
seus sócios, à comunidade em geral, beneficiando o maior número
possível de pessoas. Por outro lado, precisa sustentar-se, ser
rentável. Baseado nessa premissa, levei como uma das bandeiras de minha
campanha a idéia de que, a toda hora, é necessário fechar ralos. Outra
bandeira defendia que o hospital deveria ser o gestor de seu negócio,
pelo menos em setores básicos. É claro que não podemos arcar com um
laboratório ou um banco de sangue, por exemplo, mas retomamos o setor
de raio X, de ultrasonografia, a unidade coronariana e estamos tentando
retomar o CTI. ,
Revista: Se a sua gestão se prolongasse, em que o senhor concentraria
mais atenção?
Paredes: Há sempre muito por fazer, mas eu procuraria devolver o
hospital, aos poucos, aos seus verdadeiros donos, que são os sócios.
Mostrar que eles são a razão de existir da SEB e engrandecem a
instituição, merecendo serviços de primeira e o melhor atendimento
possível. Também buscaria sanar de vez o problema da informática,
investindo mais no desenvolvimento de um sistema que se adapte à nossa
realidade de hospital de médio porte. Já tentamos várias soluções neste
campo, mas não alcançamos o estágio ideal.
Revista: Numa certa fase de sua administração, ocorreram várias
substituições no corpo clínico do hospital. Por quê?
Paredes: Trocamos diversos médicos que estavam apáticos, trabalhando
sem qualquer motivação. Aliás, esse tipo de vigilância não pode
esmorecer, tem que ser contínua.
Revista: O senhor acha que os sócios sempre entendem bem as
mudanças?
Paredes: Nem sempre, mas cabe a nós tratar de esclarecê-los. Estamos,
inclusive, à disposição de todos para tirar qualquer dúvida. Quando
nosso plano de saúde se desvinculou da Adress (que havia falido),
precisamos de um tempo para nos reestruturar e os sócios nos apoiaram
integralmente. Eu tiro o chapéu para eles, pois deram uma prova
inconteste de sua confiança em nossos esforços. .
Revista: Em matéria de investimentos em equipamentos e instalações, sua
administração foi pródiga. De agosto de 2000 a março de 2003, isso
representou em torno de R$ 2.000.000,00 (dois milhões). Todas as
substituições, compras e construções atenderam a medidas absolutamente
necessárias?
Paredes: Para oferecermos qualidade e segurança, precisávamos de
instalações adequadas e mais confortáveis. Nenhuma instituição de saúde
funciona bem sem um centro cirúrgico bem estruturado e moderno, sem
equipamentos e materiais para exames básicos, sem estar preparada para
todos os tipos de demanda. Mas grande parte desses investimentos
resultou em benefícios financeiros diretos ou indiretos, como ocorreu
na compra de nossa usina de oxigênio. Ainda que estejamos pagando as
prestações até agora, a troca do aluguel pela compra já representa uma
economia de 30 mil mensais, incluindo-se o valor do aluguel. Mas,
depois da última parcela de pagamento, essa economia representará, em
números de hoje, R$ 43.000,00. Um outro exemplo é relativo aos
elevadores. Compramos três novos. Valeu a pena porque, em 99, a então
administração consumiu na manutenção de três elevadores o equivalente a
um novo. O que também cabe observar nesse assunto é que questões de
saúde não podem ser camufladas ou ignoradas por muito tempo. Na
hipótese de um descuido, quem paga mais caro é sempre o cliente.
FONOAUDIOLOGIA COMO SINÔNIMO DE BEM ESTAR
A qualidade de vida da criança, do adulto e, em particular, do
idoso, ganhou um forte aliado com o surgimento, há alguns anos, da
fonoaudiologia, área da saúde que pesquisa, previne e trata as
alterações de voz e audição e de certas funções vitais, como sucção,
mastigação e deglutição.
Hoje, a atuação fonoaudiológica já é sofisticada o suficiente para
interagir com outros ramos da medicina no tratamento de inúmeros
distúrbios e seqüelas de doenças e cirurgias.
Para atender a uma demanda crescente, sobretudo a do público com mais
de 60 anos, o Hospital Espanhol ativou o seu serviço de fonoaudiologia
clínica, agora sob á orientação da Dra. Andrea Malheiro. O trabalho da
médica na instituição está bastante voltado para os problemas típicos
da terceira idade, envolvendo o acompanhamento de diversas patologias,
das mais comuns - como a presbiofonia (envelhecimento da voz), a
presbiacusia (envelhecimento do aparelho auditivo) e a disfagia
(dificuldade em engolir os alimentos), até as mais comprometedoras,
envolvendo sérias dificuldades na área da comunicação, da motricidade
oral e da respiração.
Independentemente do envelhecimento dos tecidos, músculos, ossos e
órgãos, e ainda do componente hereditário, os fonoaudiólogos salientam
a importância de cuidados preventivos através da alimentação
equilibrada, dos exercícios físicos diários, do cui dado com os dentes
e a saúde da boca, e também dos hábitos de vida saudáveis, incluindo o
lazer. Muitos desajustes ocorrem justamente pela deficiência alimentar,
atrofia dos músculos mastigatórios, uso inadequado de próteses orais,
falta de consultas médicas periódicas e exposição excessiva a ruídos e
situações estressantes, gerando um caminho sem volta.
Na parte curativa, a fonoaudiologia intervém com um grande leque de
procedi mentos e exercícios, contribuindo inclusive para reverter, ou
pelo menos amenizar, as seqüelas de pacientes após um AVC ou fraturas
graves, ou o quadro de pessoas, por exemplo, com distrofia muscular,
mal de Alzheimer e Parkinson, escleroses e paralisia cerebral.
Sem dúvida, a questão principal para os profissionais de fonoaudiologia
consiste em . manter o idoso na mais plena atividade possível e o mais
próximo de seus familiares, seus amigos e seus interesses, já que este
campo da ciência trabalha a interaçáo, o contato entre as pessoas e seu
meio, a comunicaçáo como processo vital para o ser humano. Quanto mais
ríco for o relacionamento do homem com seu ambiente e com aquilo que o
mantém aceso, quanto mais ativo e útíl se sentir e se mantiver, mais
forças e auto-estima terá para recuperar o equilíbrio físico e
emocional e superar os obstáculos naturais do tempo.
CONQUISTA DE ESTATUTO DEIXA IDOSO MENOS SÓ
Após uma longa espera, recheada de cenas violentas e toda sorte de
abusos por parte da sociedade, a vida do idoso ganhou mais dignidade.
Em 1 ° de outubro do ano passado, o presidente Lula sancionou o
Estatuto do Idoso, que prevê penas de até 12 anos de prisâo contra os
infratores. Entre as conquistas asseguradas no documento, consta a
detenção de seis meses e ainda o pagamento de multa a quem discriminar
o idoso no acesso a operações bancárias e ao transporte coletivo
gratuito (neste último caso, a partir dos 65 anos).
Veja, a seguir, outras disposições do Estatuto.
· Medicamentos de uso contínuo (como os utilizados por pacientes
diabéticos e hipertensos) devem ser fornecidos sem qualquer ônus para o
idoso, bem como próteses, órteses e uma série de materiais para trata
mento de saúde e mais qualidade de vida.
· Idosos pertencentes á famílias carentes terão direito ao benefício
mensal de um salário mínimo já a partir dos 65 anos, e não mais 67.
Essa ajuda, a partir de agora, não será sustada mesmo se a família
receber alguma espécie de auxílio extra ou se sua renda for superior a
um salário mínimo por mês.
· Apesar de polêmico, um dos artigos da nova lei estabelece que os
planos de saúde ficam proibidos de fixar valores mais altos em função
da idade do conveniado. Ou seja, hoje, uma pessoa com oitenta anos
pagará o mesmo, por exemplo, que uma de 59, pois não haverá reajuste
por faixa etária após esse limite. Mas a norma se refere apenas aos
contratos assinados recentemente.
Para atender às novas diretrizes, os planos de saúde tiveram que
adaptar suas tabelas de custo à realidade e promover algumas
alterações. O Plano Master do SEB Saúde ficou assim:
TRISTE ESTATÍSTICAS
Muitos ainda temem que o recém-aprovado Estatuto não vá inibir as
desoladoras estatísticas sobre a condição do idoso no Brasil. Ao todo,
essa população soma 14,5 milhões de pessoas, com a perspectiva de
chegar a 30 milhões em 20 anos. Cerca de 63% desse contingente responde
pela sobrevivência de suas famílias, seja através de trabalho ou
dinheiro de aposentadoria. As mulheres idosas vivem mais isoladas do
que os homens: 67% moram sozinhas.
Rio de Janeiro e Porto Alegre são as cidades que concentram o maior
número de indivíduos na terceira idade - 12,85% e 11,85%,
respectivamente. Mas é em São Paulo e Belo Horizonte onde ocorrem os
maiores abusos contra eles. As Delegacias do Idoso desses locais
registraram nos boletins de ocorrência de 2003 denúncias de ameaças
(32%), maus-tratos (30% ), lesões corporais (1 0% ), abandono (7% ) e
apropriação indébita de bens (5% ), entre outras. E no país, em geral,
a situação não é menos preocupante. Foram 15 mil episódios de tortura,
90% deles cometidos pelos próprios familiares da vítima, e alguns
milhares de casos de violência nos hospitais públicos, atingindo 32% da
parcela idosa atendida.
Dentro ou fora de sua casa, o idoso é penalizado das mais diversas
formas. Jazir Carvalho, diretor de um abrigo em Santa Cruz, na zona
oeste do Rio, denunciou que a Secretaria de Estado de Ação Social
suspendeu o fornecimento da "sopa da cidadania" (que dava apenas um
caldo ralo, comenta Jair) no mesmo mês em que era aprovado o Estatuto
do Idoso. Ironia à parte, Ubirajara Francisco dos Santos é mais um que
também reclama da falta de apoio das entidades governamentais e da
sociedade civil. Ele conta que esteve internado num albergue em que o
proprietário reagia com desprezo toda vez que um idoso passava mal,
recusando-se a prestar-lhe socorro imediato. "Vocês pensam que meu
carro é ambulância?", indagava o dono do estabelecimento.
O lavrador Bento da Silva foi o primeiro a ser enquadrado no Estatuto
do Idoso. Ele se apossava da aposentadoria de sua mãe, de 73 anos, além
de submetê-la à fome e ao abandono quase absoluto. Após denúncias de
vizinhos, ela foi encontrada desnutrida e desidratada. Fato igualmente
chocante aconteceu no bairro de Realengo, numa manhã de domingo. João
Werneck Peixoto, 60 anos, doente psiquiátrico, não resistiu a
ferimentos causados por pedras e até paralelepípedos atirados por
quatro rapazes.
Não é à toa que muitas instituições de ensino superior, como UERJ,
Estácio de Sá e Veiga de Almeida, vêm colocando seus alunos do curso de
Direito para debater e analisar os crimes praticados contra idosos à
luz do , Estatuto. E um bom começo, mas a Universidade Federal do Rio
de Janeiro(UFRJ) decidiu avançar e ampliou o campo de atuação do
Projeto de Valorização do Envelhecer (PROVE), desenvolvido num espaço
do seu Instituto de Neurologia Deolindo Couto.
Trata-se de um programa criado em 1996 pela psicóloga Ligia Py, com o
intuito de promover uma rede social para idosos através de dinâmicas de
grupo e reflexões. O programa ganhou corpo e passou a incorporar uma
equipe profissional de peso, em que a também psicóloga Mirna Barros
Teixeira, mestre em Saúde Pública, desenvolve um trabalho muito intenso
com os participantes, assessorada por Selma de Souza leão, doutora em
Ciências pela Fiocruz.
Mirna explica que o aumento da longevidade provoca o desempoderamento,
que é a perda da autonomia das pessoas idosas devido à imagem negativa
do envelhecimento. E diz que o PROVE oferece uma convivência
direcionada à promoção da saúde para que o idoso não perca sua
consciência crítica diante das adversidades e preserve sua auto-estima.
Desta maneira, estará mais instrumentalizado para fazer escolhas em sua
vida e não entregá-la totalmente nas mãos de terceiros, sobretudo em
ambientes hostis.

