Revista n°. 5
REVISTA DO HOSPITAL ESPANHOL N° 5
Indice
- EDITORIAL
- BATE CORAÇÃO (MAS SEM EXAGEROS...)
- INVESTINDO NO CONHECIMENTO
- MEDICINA X DOR
- DANDO VIDA A HISTÓRIA
- O PASSADO ILUMINA O FUTURO
EDITORIAL
Concretizando projetos
Convidada pelo atual presidente da Sociedade Espanhola de
Beneficência a ocupar a diretoria social, assumi a função com o
propósito de divulgar a imagem da entidade dentro e fora da comunidade,
revelando clara e fielmente o sentido e a extensão do nosso trabalho.
São muitos os desafios e um deles diz respeito às mudanças no
informativo da Sociedade, que vem sendo publicado desde a primeira
gestão José Paredes Gerpe.
A partir deste número, a revista já aparece com novo formato, outra
programação visual e mais quatro páginas. Além disso, ganhou cores e
dinamismo, devendo aprimorar continuamente seus conteúdos para atender
às demandas tanto do público interroo quanto externo.
Perseguimos o objetivo de tornar a revista uma leitura agradável e
acessível, que veicule matérias e entrevistas de interesse público e
ainda informe sobre os serviços do Hospital Espanhol. Sobretudo,
enfatize a importância da prevenção em saúde e da conquista de
qualidade de vida.
É de grande relevância, igual mente, que a SEB utilize seu órgão de
comunicação no intuito de favorecer a integração entre os próprios
médicos do hospital. Inúmeras vezes, um profissional desconhece o que
seus colegas estão desenvolvendo no dia-a-dia, perdendo, assim,
oportunidades de trocar experiências e unir esforços em favor dos
pacientes.
Desta forma, não só a cuidadosa elaboração da Revista do Hospital
Espanhol, como também a promoção de palestras e seminários,
permanecerão na pauta das prioridades e no centro das atenções da
diretoria social da SEB: eis o meu compromisso com a coletividade.
Mercedes Danza Lires Greco (Diretora Social da SEB)
BATE CORAÇÃO (MAS SEM EXAGEROS...)
Face aos números alarmantes de doenças cardiovasculares, a
Associação Americana do Coração divulgou suas última diretrizes para a
prevenção desses distúrbios. As recomendações trazem uma série de
novidades em relação as anteriores divulgadas em 1997. A principal
delas: a ênfase na necessidade urgente de as pessoas adotarem um estilo
de vida saudável. Não fumar, ter uma alimentação equilibrada, praticar
exercícios físicos e submeter-se a controles médico periódicos são
atitudes que reduzem em mais de 80% o risco de enfarte e derrames.
Os distúrbios cardiovasculares são a grande causa de mortes no mundo, com 17 milhões de óbitos - o equivalente a um em cada trê mortes. No Brasil, somam 300 mil por ano. Mantido o cenário atual, estima-se que, em 2020, as mortes provocadas por eles cheguem a 25 milhões !
Preocupada com este quadro, a Associação Americana do Coração endureceu suas prescrições. Conheça as atuais orientações e em que fatos se baseiam:
1- Início da prevenção - já a partir dos 20 anos. Motivo: o número
de jovens vítimas de doenças cardiovasculares tem aumentado muito. E
nesses pacientes, os enfartos tendem a ser fulminantes.
2- Taxa de colesterol total - até 2OOmg por decilitro de sangue, e não mais 240. Motivo: os médicos esperam que a redução dos parâmetros tidos camo ideais resulte em tratamentos mais agressivos.
3- Uso de aspirina - recomendado inclusive para quem apresenta menor risco de sofrer enfarto ou derrame, na dosagem de 75 a 160mg por dia (ou menos da metade de um comprimido). Motivo: estudos confirmaram que a aspirina diminui o rìsco de formação de coágulos sangüíneos, que podem levar ao entupimento arterial.
4- Alimentação - nenhuma orientação específica. Mas a dieta ideal permanece a de sempre, com base em frutas, legumes, verduras, grãos e carnes magras. O consumo de gordura não pode ultrapassar 10% do total de calorias diária e o sal deve restringir-se a 6g por dia. Motivo: uma alimentação balanceada contribuï para aumentar o nível de colesterol bom, melharo a elasticidade das artérias e difïculta o depósito de gordura nas paredes dos vasos sangüíneos.
5- Peso - o índice de massa corporal está fixado agora entre 18,5 e 24,9 %, mas a proporção entre cintura e quadris precisa ser levada em conta. Nos homens, não pode ultrapassar 1; nas mulheres , 0.8. Motïvo: tão perigoso quanto o excesso de gordura, é o modo como se distribui pelo corpo. O tecido adiposo que se concentra na região abdominal é o mais danoso ao coração
6- Cigarro - evitar fumar de todas as maneiras, seja na condição ativa ou passiva. Motivo: já está demonstrado que o fumante passivo tem o dobro de probabilidade de sofrer do coração em relação a alguém que não se expoe ao cigarro.
7- Atividades Físicas - meia hora de exercícios diários, cumprindo uma rotina. Motivo: a prática mais intensa de atividade física é eficaz para baixar o peso e aumentar a taxa de colesterol bom. A probabilidade de um sedentário sofrer enfarto é 40% maior que a pessoa fisicamente ativa.
8- Terapia de reposição hormonal - a prescrição foi suprimida. Motivo: com a divulgação recente, pela Associação Médica Americana, de que comprimdos à base dos hormônios estrógenos e progesterona aumentam a probabilidade de uma mulher sofrer enfarto ou derrame, ficaram sob suspeita todas as formas de terapia de reposição hormonal para fins de prevenção contra doenças cardiovasculares.
Há quarenta anos, 65% das vítimas dos males cardiovasculares estavam acima dos sessenta e cinco anos e só 10% eram mulheres. Hoje, 50% das vítimas têm menos de cinquenta e cinco anos e o índice de mulheres acometidas por tais problemas cresceu para 25%.
No entanto, se antes apenas sete entre dez enfartados sobreviviam,
atualmente nove se salvam. E menos de 1% morre durante a intervenção
cirúrgica.
INVESTINDO NO CONHECIMENTO
O Hospital Espanhol esteve bem representado no 15° Congresso Europeu de
Terapia Intensiva, em Barcelona, considerado um dos mais importantes do
mundo. 0 médico Fernando Bozza, do CTI, apresentou naquele fórum dois
trabalhos que enfocam a resposta imunológica do organismo de pessoas
com infecções graves, buscando identificar as substâncias responsáveis
por esse padrão de resposta (os chamados mediadores) e novos alvos
terapêuticos.
Desenvolvidos em parceria com a UFRJ (Hospital Universitário) e a
Fundação Oswaldo Cruz (laboratório de imunofarmacologia), os estudos
levados ao congresso assumem uma relevância ainda mais significativa
face a dados, no mínimo, preocupantes. Nos EUA, por exemplo, onde as
estatísticas são habituais, sabe-se que ocorrem 700 mil mortes anuais
em função da "sepse" - resposta imunológica do indivíduo que enfrenta
um quadro infeccioso de risco. Ou seja, a "sepse" é a principal causa
de óbitos nas unidades de terapia intensiva nos hospitais
norte-americanos e a terceira de um modo geral. Quanto ao Brasil,
infelizmente ainda não dispomos de um levantamento preciso.
Mas, à semelhança do que acontece em toda ação investigativa, existem
menos certezas do que interrógações. Digamos que o ponto de partida
seja o fato de a pneumonia e a peritonite (regiáo abdominal) serem as
m.aiores causadores da sepse. No entanto, em que medida a genética, o
próprio sistema imunológico de cada paciente e a virulência (tipos de
bactéria) influenciam no processo? Como evitar que os mediadores (como
protefnas, lipídios etc.) atuem de forma exacerbada e, ao invés de
combater as bactérias, matem as células?
Indagações, existem de sobra. O importante, porém, segundo o Dr.
Fernando Bozza, é a iniciativa do Hospital Espanhol de incentivar suas
equipes a participar de pesquisas de alto nfvel, estar presente nos
debates internacionais, colaborar com instituiçôes de renome (como a
Universidade de Harvard) e debruçar-se sobre importantes questões de
saúde pública.
MEDICINA X DOR
O que leva uma pessoa a conviver com a dor dia após dia, ano após ano?
Talvez ela não saiba que existe uma especialidade na medicina para
tratar de dores crônicas - aquelas que persistem de três a seis meses.
E que essa especialidade já é oferecida há bastante tempo, ainda que em
poucas instituições de saúde e raros convênios médicos.
Trata-se da clínica de dor , exercida no Hospital Espanhol pelo Dr.
Maurilio Arthur de O. Martins. Ele é o primeiro a admitir que os
próprios médicos, em sua maioria, desconhecem essa especialidade ou não
sabem exatamente em que situações indicá-la aos pacientes.
"Os que buscam meus serviços vêm através de indicações de amigos ou
porque leram alguma reportagem", diz o médico, lamentando que muitas
pessoas só recorram à clínica de dor em situações extremas, quando é
mais difícil livrá-las do sofrimento ou atenuar o quadro.
No entanto, tal especialidade poderia beneficiar a parcela dos 5 a
10% de pacientes que habitualmente não reagem aos tratamentos
prescritos (por motivos diversos) e, desta forma, permanecem convivendo
com os incômodos da dor. Melhor ainda: poderia evitar o surgimento de
dores crônicas, através de ações preventivas. Não precisamos ir tão
longe. Basta dizer que a clínica de dor atua satisfatoriamente (e, às
vezes, de forma surpreendente) desde os casos de doença mais simples
aos mais complexos. Cuida tanto das seqüelas dolorosas de um herpes,
como de câncer, polineuropatia diabética patologia que impede a
qualidade de vida; nevralgia do nervo trigêmeos e osteoporose, por
exemplo. Nesta última referência, por sinal, seus resultados têm se
revelado extraordinários.
O trunfo da clínica de dor reside, justamente, no imenso arsenal de que
lança mão para investigar as verdadeiras raízes da dor,
independentemente de ela ser real ou imaginária. Eis o grande desafio:
descobrir, primeiro, o que está "por trás" das queixas do paciente,
para então cuidar de seu problema com o uso de inúmeros instrumentos e
técnicas (como a acupuntura) e o auxílio de equipe multidisciplinar
(psicólogo, fonoaudiólogo etc.).
Mas enquanto os EUA vivenciam a "década da dor", decretada ano passado,
o Brasil continua engatinhando nesse terreno. E muitos são os fatores
que justificam o atraso; entre eles, a desinformação. Existem
indivíduos que, até hoje, preferem a dor aos medicamentos, com receio
de complicações ou se intoxicarem. Ignoram, infelizmente, que os
estados dolorosos liberam substâncias capazes de afetar
consideravelmente o sistema imunológico do ser humano, resultando em
agressões ainda maiores à saúde.
DANDO VIDA A HISTÓRIA
Toda a memória da Sociedade Espanhola de Beneficência está sendo
resgatada nos seus mínimos detalhes. O trabalho é árduo, mas
gratificante e cheio de surpresas - garante a historiadora Paula
Salgado e sua companheira no desafio, Elizabete Delamarque, estudante
de história e museologia (duas desbravadoras). Desde maio deste ano,
ambas estão debruçadas sobre uma pilha de livros, com o propósito de
fazer o inventário do acervo documental da SEB, que será
disponibilizado em CD-ROM para o público em geral e para fins de
pesquisa.
Paula e Elizabete desenvolvem a tarefa em três frentes. A primeira é a
elaboração de fichas catalográficas, que servirão para localizar e
identificar cada documento. Uma outra iniciativa é o levantamento das
juntas diretivas da Instituição através dos tempos.
E, por fim, a reconstituição da própria história da Sociedade, com
fatos pitorescos e inusitados, muitos deles registrados em atas."Já nos
deparamos com situações bem interessantes", comenta Paula, citando
numerosos exemplos. Entre eles, o relato da formação da SEB, que
durante anos funcionou apenas como uma espécie de "Caixa Assistencial",
ajudando os imigrantes espanhóis carentes a ter acesso a serviços
médicos e jurídicos, e até a adquirir a passagem de volta à terra
natal.
Merecern destaque, igualmente, as referências à inauguração oficial
da Sociedade, em 1859, na rua Primeiro de Março; os relados do discurso
na solenidade de abertura da primeira sede social, na rua da
Constituição; e o sistema de arrecadação de fundos para filantropia,
através da venda de ingressos de espetáculos teatrais e de balé (quase
sempre apresentados por companhias artísticas procedentes da
Espanha).
E não é só. Paralelamente à tanta fartura de referências e matériais -
que varam dois séculos e reconstroem períodos significativos da vida
dos espanhóis no Brasil -, existem, aindá, as edições doadas à
biblioteca da SEB, verdadeiras jóias raras de valor inestimável, como
os dois volumes de Don Quixote de La Mancha.
Mergulhar em um enredo que mescla fidalguia e bravura, vaidade e
companheirismo, arrojo e tradição, sucessos e riscos e depois recolher
seus pedaços e registrá-los para o futuro, é uma oportunidade
imperdível para Paula e Elizabete. Elas atribuem a chance e o mérito ao
atual presidente da Sociedade Espanhola de Beneficência, José Paredes
Gerpe, e têm a certeza de que essa árvore dará muitos frutos pela
frente.
O PASSADO ILUMINA O FUTURO
Aos 94 anos, com vigor e lucidez invejáveis, Francisco Américo Gonzalez
Sequeiros é a maior fonte de informações sobre as conquistas e
dificuldades da SEB desde sua fundação. Ex-presidente da Sociedade, ele
emigrou da Galícia aos 18 anos e veio construir, na ,nova terra uma
trajetória de vida vitoriosa, tanto no aspecto familiar quanto no campo
profissional.
De origem pobre e acostumado a trabalhar desde a infância, Francisco
Gonzalez nunca mediu esforços para concretizar seus sonhos e dar o
melhor de si por uma boa causa. Até hoje, mantém acesos seus ideais de
solidariedade. Nesta entrevista, "um dos espanhóis mais conhecidos da
cidade do Rio de Janeiro" (como Francisco Gonzalez se autoproclama,
porém com modéstia, referindo-se aos seus áureos tempos de atividade)
fala sobre vários aspectos, da Sociedade Espanhola de Beneficência,
revelando toda a potencialidade dessa Instituição.
· Como o senhor define a SEB?
É uma entidade que merece respeito e admiração pelos inestimáveis
serviços que vem prestando à colônia espanhola e à comunidade em geral.
Na SEB, não há diferença no tratamento dado a ricos e pobres. Todos
encontram ali o apoio e o abrigo de que necessitam em momentos
difíceis. .
· Qual o seu conceito sobre o atual corpo c'Ifnico do hospital?
Antes de mais nada, é importante lembrar que o Hospital Espanhol sempre
teve um corpo clfnico de alta categoria, com médicos de renome que
salvaram muitas vidas e prolongaram outras tantas. Não posso deixar de
mencionar os Drs. Raphael Leite Luna, José Cascardo, Laporta, AntBnio
Dino e Joe Ferreira de Sousa. No caso de Dino, . eu o indiquei para uma
vaga de residente no hospital em 1940, pois tazia parte do Conselho
Deliberativo, e ele acabou se tornando diretor. Quanto ao atual quadro
clfnico, dispóe de médicós de grande expressáo, em todas as
especialidades, que desempenham sua função com muita competência. Tanto
que pessoas que tem seguro saúde, com direito a utilizar os melhores
hospitais, preferem a Benefic~ncia. Foi o caso do meu genro, que
recentemente se submeteu a uma cirurgia na coluna cervical.
· Comente a sua passagem pela SEB.
Entrei para o Conselho em 1931 , onde permaneço até hoje. Naquela
época, por absoluta falta de tempo, náo tinha condiçóes de aceitar um
cargo de diretor. Mas, em 1979, a diretoria da SEB me procurou quando
eu voltava da Espanha, em pleno aeroporto, pedindo-me que assumisse a
presidéncia, com carta branca para promover mudanças. Não pude recusar
e, assim, partimos para a diffcil missáo de reerguer a casa, que estava
sem crédito e com atraso no pagamento dos salários. Essa gestáo durou
10 anos e obtivemos resultados fantásticos, chegando até a ampliar as
instalaçóes. Foi um perfodo de luta incansável, com a participaçáo da
diretoria, dos médicos e dos funcionários.
· O que mais o tranqüiliza e o preocupa em relação ao futuro da
SEB?
Sou muito otimista, pois a Instituição já ultrapassou obstáculos enormes. Fico muíto feliz em ver a SEB seguindo firme o seu destino, cercada de credíbilidade e consciente de seu papel socíal. Mínha única preocupação diz respeito à necessidade de se ter uma diretoria com dedicação plena à SEB, o que é uma exigência difícil, pois as tarefas sáo exaustivas e sem remuneraçáo. Quem aceita o desafio, deve fazê-lo pensando no bem da sociedade, sem vaidades tolas.
. Que medidas podem ser tomadas em favor da SEB ?
O Conselho deve renovar-se para dar oportunídades aos novos valores,
sem prescindir da experiência dos maís antígos. Por outro lado, não só
a diretoria, mas o corpo clínico e o quadro funcíonal, devem
empenhar-se para assumir funçóes importantes e interagirem com a
admínistração. Também os sbcios precisam participar maís ativamente dos
trabalhos socíais de caráter permanente ou extraordináríos. Neste
sentido, eu e velhos companheiros temos saudades das festas promovidas
.pela Sra. Amália Conde, em Jacarepaguá, em que passávamos o dia todo
confraternízando e, ao final, juntávamos uma boa ajuda aos cofres da
Benefícência.

