Revista n°. 6
REVISTA DO HOSPITAL ESPANHOL N° 6
Indice
- EDITORIAL
- ECOS DE UM NAUFRÁGIO
- RECUPERAÇÃO DA NACIONALIDADE ESPANHOLA
- QUALIDADE TOTAL COMO PRIORIDADE
- CONVIVENDO COM ALZHEIMER
- ARTE RECRIA A PAISAGEM
- TERCEIRA IDADE: A NOVA CARA DO MUNDO
- DOCE FILANTROPIA
EDITORIAL
O sonho como investimento
Não sei se é porque nasci no Hospital Espanhol, ou se porque meu avô
foi dele conselheiro, ou ainda se porque meu pai foi presidente. O que
sei é que sinto um misto de carinho e gratidão por ele. E quando fui
convidado a fazer este editorial, fiquei muito honrado e, ao mesmo
tempo, apreensivo. Para quem não faz da escrita a sua profissão, é
sempre um grande desafio.
Passado o susto, veio o enigma: sobre o que esCreverei? Confesso que
esta pergunta atormentoume um bom tempo, mas decidi abordar as
realizações da diretriz nestes dois anos e meio de trabalho árduo, mas
gratificante. Quando o esforço é para o bem do próximo, da comunidade
em geral apenas com o interesse de servir -, é como se nossa alma se
acercasse um pouco mais de Deus.
É claro que esta diretoria não fez tudo o que queria, pois sempre há
escassez de recursos, contratos a serem cumpridos, limitações de tempo
e espaço e uma série de dúvidas: qual é o momento certo de mudar? Qual
o montante ideal do investimento? Mas é inegável que Nromovemos
inúmeras reformas, necessárias para melhorar o Hospital e mantê-lo em
um nível adequado de limpeza e conforto.
Em termos de equipamentos, por exemplo, entre novas aquisições ou
reposições, podemos citar o Intensificador de Imagens, imprescindível
na sala de cirurgia; o tão necessário Videolaparoscópio; o novo carro
de anestesia; os dois focos cirúrgicos e o aparelho de ultra-sonografia
de última geração, além de três elevadores em substituição aos antigos
e uma série de outros materiais e aparelhos de menor porte. Já na área
de construções, erguemos mais uma sala no Centro Cirúrgico e a Central
de Esterilização, uma lixeira de acordo com as exigências da Secretaria
Municipal de Saúde, o prédio do Centro Administrativo com três
pavimentos e a moderna Emergência, dotada de diversas salas e
funcionando 24 horas.
Mas não é só. Em bre.ve, o Hospital Espanhol vai dispor também de uma
usina de oxigênio, que o fará auto-suficiente em relação a este item e
trará uma economia bastante significativa. E o detaIhe importante de
tantas conquistas é que as fizemos com recursos da Sociedade, sem
recorrer à venda de qualquer patrimônio - o que para nós é motivo de
orgulho.
Resta-me, então, ao concluir esta nossa conversa, confessar que a
diretoria da SEB realizou obras com o prazer de estar edificando um
sonho; transformando o presente em futuro. Não há palavras que
expliquem. Basta dizer que FAZER, VALEU! ! !
Francisco Gonzalez Vidal (1° Secretário da SEB)
ECOS DE UM NAUFRÁGIO
Quando Joana Carda, com sua vara de negrilho, liberou a Península
Ibérica para navegar pelo Oceano Atlântico, muito provavelmente esta,
navegação se iniciou pelo Mar da Galícia. E verdade que Saramago não
nos fez conhecer a carta de prego e o comandante daquela que, com
certeza, seria a maior das embarcações da História. Tampouco saberíamos
pela Jangada de Pedra as características daquele mar, isto nos fez
saber outro Prêmio Nobel de Literatura, Camilo José Cela, em "Madeira
de lei" .
Por ele passamos a conhecer os demônios que dormem naquele pedaço do
Oceano Atlânfico, soubemos dos seus sonos agitados, que produzem
cataclismos e engolem embarcações. Através dos séculos, milhares de
almas foram conduzidas a seu destino final por causa daquelas âguas, ou
melhor, dos sonos agitados de seus demônios.
Entretanto, é impossível que a varinha com que Joana Carda separou a Espanha da França, e também da possessão inglesa do penhasco de Gibraltar, tenha sido perdida durante a viagem da Jangada de Pedra e, quase sem querer, trombado no navio Prestige, fazendo com que se partisse ao m eio, derramando tragédia e tristeza nas praias da Galícia, nas profundezas do mar, nos corais, nos moluscos, nos peixes, nas bruxas, nos náufragos e nas sereias. E é impossível porque a varinha de Joana Carda existe, tão-somente, na mente genial do seu criador. Portanto, o que derramou a tragédia e a tristeza em tudo e em todos foi a falha humana, a negligência humana, a permissividade humana, a ganância e a cumplicidade humanas.
É incrível que, nos dias de hoje, de tão avançadas tecnologias, um
navio daquele porte, 5em casco duplo, pudesse estar transportando
petróleo. Para ter se partido em dois durante uma tempestade, é bem
provável que o seu tempo de vida útil já devesse estar para lá de
expirado, ou ainda que diversas operações de navegabilidade e
flutuabilidade tenham sido equivocadamente realizadas.
Não é o petróleo o demônio dessa história. O personagem feio e
perverso, além de responsável por naufrágios, são os procedimentos
negligentes, que não podem ser complacentes com todo e qualquer
interesse ~ econômico. Para não repetirmos a estupidez de desastres
como este, o ideal é que possamos prevenir, elaborando projetos com
sistemas de segurança intrínseca, equipes de avaliação e inspeção
técnica permanente e , normas mais rigorosas, mais exigentes e mais bem
formuladas.
Emblemático é o caso brasileiro, que está a exigir o aprimoramento dos
processos de regulamentação e fiscalização das atividades marítimas da
indústria do petróleo, propiciando níveis mais elevados de segurança
operacional e proteção ambiental. A atratividade do valor dos serviços
não pode diminuir na mesma proporção que diminuem as garantias da
segurança.
Dois meses após o acidente com o Prestige (e uma semana depois do
acidente com o Candiota, na costa do Espírito Santo), seus fantasmas
continuam a aterrorizar os pescadores galegos e todos os que têm
consciência da fragilidade do planeta. É urgente emergirmos disto tudo
com uma dose grande de entendimento e autocrítica. Só assim,
finalmente, como disse o poeta, "do homem compreendido/ nascerá o homem
redimido" .
Artigo de Eloi Fernández y Fernández, professor da PUC-Rio,
publicado em 3 de fevereiro no jornal O Globo
RECUPERAÇÃO DA NACIONALIDADE ESPANHOLA
Descendentes de espanhóis, em todo o mundo, acabam de adquirir novos
direitos relativos à nacionalidade, com a sanção da Lei 36/2002, de 8
de outubro, que modifica o Código Civil da Espanha. Muitos objetivos
justificaram a medida, como salvaguardar os direitos econômicos e
sociais dos trabalhadores espanhóis que vivem no exterior, facilitando
a conservação e transmissão da nacionalidade espanhola até um possível
retorno do emigrante ao país de origem.
Para simplificar o entendimento da questão, o Consulado Geral da
Espanha enviou uma correspondência às entidades representativas,
resumindo as principais deliberações da referida lei. Vamos
conhecê-las.
- Todas as pessoas, cujo pai ou mãe tenha sido originariamente espanhol
e nascido na Espanha (e depois ganharam nova nacionalidade, podem optar
pela nacionalidade espanhola junto ao Consulado sem limite de
idade.
- No caso de pai espanhol com nacionalidade estrangeira, agora seus
filhos tem o direito de requerer a nacionalidade espanhola a qualquer
tempo. Antes, eram obrigados a adotar a nova nacionalidade do
pai.
- No caso de mãe espanhola com naciona lidade estrangeira, os filhos
com data de nascimento anterior a 29 de dezembro de 1978 também podem
reivindicar hoje a nacionalidade espanhola, independentemente da
idade.
- Os nascidos e residentes no exterior que ostentam a nacionalidade
espanhola por serem filhos de pai espanhol ou mãe espanhola, estes
igualmente nascidos fora da Espanha, perderão a nacionalidade espanhola
se não declararem a vontade de conservá-la perante o encarregado do
Registro Civil, no prazo de três anos (a contar da data da maioridade
ou emancipação.
Informações mais detalhadas sobre o assunto, incluindo medidas
relativas a netos de espanhóis, estão disponíveis na home page do
Ministério de Assuntos Exteriores: www.mae.es
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QUALIDADE TOTAL COMO PRIORIDADE
Ao assumir o cargo de Diretor Médico do Hospital Espanhol do Rio
de Janeiro, em outubro de 2002, o Dr. José Paulo de Jesus (foto) já
vislumbrava grandes desafios pela frente. O principal deles era o de
reestruturar o Hospital como uma empresa de saúde moderna,
proporcionando serviços médicos com qualidade e eficácia, a um
custo-benefício coerente com a realidade brasileira das operadoras de
saúde.
A luta será árdua, em se tratando da complexidade de uma instituição de
saúde mais que secular, com suas culturas de gestão necessitando de uma
reformulação. Mas o novo Diretor está cheio de fôlego e planos.
Acredita que, em pouco tempo, o Hospital Espanhol fará jus ao
Certificado de Acreditação em Saúde, que é equivalente ao ISO no meio
industrial.
Entre as medidas em curso, já há uma tompleta reformulação no
sistema de gerenciamento da enfermagem, da informática e da farmácia.
Atualmente, todas as compras de materiais e medicamentos estão sendo
feitas por intermédio de um leilão virtual na Internet, trazendo
economia de até 60% na aquisição de certos produtos. '
Esta Gestão Operacional pelos Sistemas de Garantia de Qualidade visa,
além da Acreditação em Saúde, um financiamento do BNDES de até R$ 20
milhões, que proporcionará uma completa reestruturação física e
modernização dos equipamentos hospitalares. Esses recursos vão
possibilitar a adequação da Instituição às normas expedidas pelas
Agências Nacional e Anoericana de Controle de Qualidade em saúde.
Criou-se o Setor de Imagem, próprio do Hospital, com a compra de um
moderníssimo aparelho de ultra-sonografia, no valor de U$ 50 mil, que
realiza, além dos exames convencionais, exames de ecodoppler colorido
dos sistemas venoso e arterial periféricos e cardiológicos."Contamos
com médicos radiologistas capazes de realizar biópsias dirigidas pelo
ultra-som em tumores da mama, tireóide, próstata, fígado e
retroperitônio", diz o Dr. José Paulo.
Outras iniciativas para aperfeiçoar o funcionamento do Hospital e
fortalecer sua credibilidade interna e externa são as seguintes:
- Reforço do quadro clínico da Instituição, com a chegada de novos
especialistas. Isso inclui uma equipe de cirurgia cardíaca conduzida
pelo Dr. José Oscar Reis Brito, que chefia o mesmo setor no Instituto
Nacional de Cardiologia (do Ministério da Saúde), antigo Hospital de
Cardiologia de Laranjeiras;
- Intensificação do intercâmbio técnicocientífico com o Ministério da
Saúde da Espanha e Comunidade Européia em geral, para contemplar a
compra de novos aparelhos e a transferência de tecnologia;
- Organização de eventos para reciclagem profissional e troca de experiências, como o I Curso de Emergências Cardiovasculares - a cargo do Dr. Fernando Palhares (coordenador da UTI-COR do Hospital Espanhol) e desenvolvido na segunda quinzena de março.
O Dr. losé Paulo de Jesus possui formação em Oncologia Circírgica,
atuando no lnstituto Nacional de Câncer (lNCA, com Pós-Graduação em
medicina nos EUA, Japâo e França. Tem MBA em saúde pelo IBMEC - JONHS
HOPPKlNS UNIVERSITY. Coordena o serviço de oncologia do Hospital
Espanhol.
CONVIVENDO COM ALZHEIMER
Quando o médico alemão Alois Alzheimer, no início do século 20, diagnosticou uma patologia neurológica com características de demência - em que havia sintomas de perda de memória e de habilidades motoras, além de sérios transtornos de comportamento - , nâo tinha a mínima noção de que esta doença levaria o seu nome e se tornaria um grande problema de saúde pública em todo o mundo. Na verdade, um dos maiores desafios da geriatria neste novo milênio.
A questão ganha ainda mais gravidade se levarmos em conta que as
populações estão envelhecendo, principalmente nos países em
desenvolvimento, como o Brasil.
Hoje, no total, existem 18 milhões de idosos com a Doença de Alzheimer,
sendo 61 % deles nas regiões mais pobres. Daqui a 25 anos, tere. mos 34
milhões nesta situação. As estatísticas brasileiras também são
alarmantes: um milhão de pessoas acometidas, em algum grau, pela
enfermidade. O que acontece com o cérebro dos portadores da Doença de
Alzheimer? Segundo os médicos, ele atrofia, especialmente nos lobos
frontais e no hipocampo, com diminuição das atividades elétricas e
químicas de suas células.
No começo, os sinais são sutis, e até aceitos pelos familiares e
pela sociedade como inerentes ao processo de envelhecimento. Mas à
medida que o mal evolui - sobretudo por tratar-se de . uma síndrome
incurável, de causas desconhecidas -, o paciente irá requerer uma
atenção muito especial, incluindo cuidados gerais, supervisão dos
parentes e consultas regulares ao neurologista e outros profissionais,
para monitoramento
das condições de saúde.
No Hospital Espanhol, a Dra. Elisabete Pedra de Matos atende de cinco a
dez casos mensais de Doença de Alzheimer, sempre buscando conscientizar
a família do paciente sobre o que está por vir.
"Se o idoso for acompanhado desde a fase inicial", diz a médica , "é
possível resgatar uma certa qualidade de vida e retardar os piores
momentos desse quadro" . Ela acrescenta que o tratamento da enfermidade
exige um trabalho multiprofissional, envolvendo vários especialistas,
como 0 fisioterapeuta, o ortopedista, o fonoaudiólogo, o psicólogo e o
psiquiatra, por exemplo.
Diante da inexistência de soluções clínicas e cirúrgicas para a Doença
de Alzheimer, e de seus perversos danos à estrutura familiar, a
prevenção se afigura como o melhor remédio e a melhor terapia.
Portanto, os que trazem herança genética devem permanecer antenados,
mas nem por isso se desesperar de véspera. A Dra. Elisabete' esclarece
que um cérebro em constante ebulição e aprendizagem é mais difícil de
adoecer. Daí ela aconselha a todos, sem exceção, independentemente de
idade, sexo e classe social: "Nada de inércia e aposentadoria precoce.
A cabeça precisa de estímulos para se manter viva e saudável".
Estágios da Doença entre 8 e 10 anos
lnicíal: formas leves de esquecimento, dificuldade de
memorização, descuido com a aparência pessoal e no trabalho,
desorientação quanto a tempo e espaço perda discreta de autonomia e
iniciativa, alterações a personalidade.
lntermediário: dificuldade para reconhecer pessoas e
situações, incapacidade aprendizado, perambulação, incontinência
urinária e fecal, comportamentos inadequa dos (irritabilidade,
hostilidade, estranheza, agressividade etc.), incapacidade para
julgamentos e para pensamentos abstratos.
final: perda de peso (mesmo com dieta adequada), mutismo,
irritabilidade extrema, incapacidade total para movimentos, completa
dependência (no que se refere à alimentação, higiene e demais
cuidados); deterioração das funções cerebrais, morte.
ARTE RECRIA A PAISAGEM
A Sociedade Espanhola de Beneficéncia ganhou cores e luzes com o
projeto gráfico do artista plástico Ivan Pinto, dividido em três fases.
Já de início, ele foi arrojado na criação de um painel de quinze metros
de comprimento por seis de altura, patrocinado pelo Banco Pastor, com a
intenção de integrar a parede de contenção do fundo do Hospital
Espanhol ao campo visual do pátio.
O trabalho conferiu ao iocal - onde fica a sede da administração - mais
imponência, impressão causada pelos efeitos tão especiais quanto
virtuais, conforme explica o autor da obra.
As colunas integram-se ao painel como se fosse placas que flutuam, e
utilizadas com o objetivo de ampliar a profundidade da pintura, que tem
uma conotação bastante surrealista", diz Ivan Pinto. Ele é também o
responsável por uma outra mudança nas dependências da SEB: a pintura de
Santiago de Compostela, na medida de um metro de largura por seis de
altura.
Nesta pintura, centrada na dimensão vertical, a imagem "aponta" para o
alto através das curvas do desenho e da orientação da cabeça do santo.
As cores fortes forarli usadas para sugerir uma atmosfera alegre e
descontraída, traduzindo o sentimento da fé com alegria. Um detalhe
singular é a cruz pendurada na cintura de Santiago de Compostela estar
cuidadosamente colocada na linha dos olhos de quem observa a obra. A
terceira etapa do projeto idealizado por Ivan Pinto envolveu uma antiga
escultura de Santiago de Compostela, dando-Ihe vida nova por meio da
pintura. Como resultado, ela ganhou luminosidade e a aparência de ser
moldada em barro, bem ao estilo da arte brasileira. Suas cores, agora,
se misturam às do Caminho de Santiago, que aparece atrás, enquanto este
se transfigura em luz, representada pelo sol nas montanhas.
TERCEIRA IDADE: A NOVA CARA DO MUNDO
Graças aos avanços da medicina e à ênfase no conceito de qualidade de
vida, em 50 anos o número de idosos passará dos atuais 600 milhões para
2 bilhões.
Hoje, uma em cada 10 pessoas tem 60 anos nu mais, segundo dados da
Organização das Nações Unidas.
Essa estatística repre5enta uma verdadeira revolução, acarretando novos
e enormes desafios para diversos países, especialmente os menos
desenvolvidos. Há o risco de se sobrecarregarem na tentativa de pagar
benefícios de aposentadoria e prestar assistência na área de saúde aos
idosos .
A ONU afirma que o grande percentual de pessoas na terceira idade
mudará, significativamente, os futuros padrões de poupança,
investimento e consumo, mercado de trabalho, pensões, taxação, cuidados
médicos, composição familiar e hábitos, habitação e migração. Por outro
lado, será preciso responder a questões afetas diretamente ao processo
de envelhecimento, de forma que os idosos contribuam mais para a
sociedade, sintam-se úteis e saudáveis (e o sejam, de fato) e
conquistem, verdadeiramente, apoio e valorização.
Na Espanha, há grande preocupação com o assunto.
Em abril de 2002, Madri foi sede da II Assembléia Mundial do
Envelhecimento, que reuniu 5 mil delegados de 160 países, além de ONGs
e outras instituiçôes, com o objetivo de manifestar um compromisso de
solidariedade com os idosos e propor ações que Ihes favoreçam.
À semelhança do que ocorre no exterior, o Brasil também se mobiliza em torno do tema. Algumas entidades ocupam papel especial no debate sobre as condições de vida de pessoas de idade avançada e no enfrentamento dos problemas decorrentes do envelhecimento.
Uma delas é a Sociedade Recreio dos Anciãos. Em 18 de outubro
passado, a entidade organizou o I Seminário "Envelhecimento com
Qualidade de Vida", convidando grandes autoridades em geriatria,
pesquisadores do meio acadêmico e profissionais dos diversos segmentos
da saúde, incluindo o público universitário.
O encontro discutiu meios eficazes, concretos e humanitários de lidar
com o lado físico e emocional da população acima dos 60, elevando sua
auto-estima. No encerramento, diversos moradores do Recreio dos Anciões
apresentaram depoimentos, reforçando a imagem de que vivem em uma
instituição modelo, que foge ao mero assistencialismo na promoção do
bem-estar dos idosos . Os habitantes do Recreio são o retrato vivo de q
ue é possível envelhecer com dignidade, cercado de uma especial atenção
e de um ambiente fraterno.
1-Qual o segredo para se chegar saudável aos 100 anos?
O cardiologista Jairo Mancilha e o psiquiatra Luíz Alberto Py abrem
jogo no livro "O caminho da longevidade", escrito com base em pesquisas
e análise de questionários respondídos por pessoas acima dos 90, de
ambos os sexos, bem disposta se independentes. O resultado é um guia
sobre como melhorar a qualidade de vida, criando novos hábitos e
reformulando os antigos. Para os autores, saber viver, de forma
prazerosa e otimista, é tão importante como a alimentação, os
exercfcios físicos, o sexo, o repouso e o controle do peso.
2- O envelhecimento humano é reversível.
Qualquer pessoa pode retardar sua idade biológica, mantendo uma mente
jovem. Quem afirma isso é o famoso médico e filósofo Deepak Chopra,
pesquisador de questões de saúde e comportamento. E o método é simples,
acessível a todos os mortais: basta chamar mais entusiasmo para sua
vida, mais bom humor, mais serenidade, mais compartilhamento. Como ?
Sendo tolerante, por exemplo. Revendo velhos filmes e velhos'v amigos.
Redescobrindo a arte de amar. Assistindo ao pôr-do-sol. Contando e
ouvindo piadas. Andando de bicicleta. Convivendo com gente jovem e
crianças. Pintando aquarelas. Indo a um parque de diversões. Fazendo
piqueniques. Dançando e rindo da vida. Camínhando sem destino. Ouvindo
músicas e o som do mar. Inventando pratos diferentes para o almoço.
Desengavetando sonhos (só quem está bem vivo tem planos)...
Turismo agita a vida dos idosos
A terceira idade representa uma grande fatia do mercadó de turismo.
Como a maior parte das pessoas desta faixa etária está aposentada, têm
mais tempo para conhecer novos lugares sem se preocuparem com a época
do ano. Muitas até preferem viajar fora de temporada. "É bem
tranqüilo", argumenta a espanhola Dolores Viegas, que, aos 72 anos, dos
quais 50 vividos no Brasil, ainda cuida de sua casa e adora passear com
amigos em excursões.
O preço das passagens, porém, não é especial para idosos. A maioria das
empresas de turismo não faz pacote promocional para indivíduos da
terceira idade. Já os cruzeiros marítimos, apesar do alto custo,
oferecem uma série de atrativos e, por isso, os idosos esforçam-se por
fazer a viagem de navio pelo menos duas vezes. Os mais procurados são
os de cinco dias, com destino ao Rio, Búzios ou Florianópolis, e
acontecem durante o verão. Quanto ao exterior, grupos da terceira idade
preferem conhecer a Europa, escolhendo roteiros que incluem quatro
países, preferencialmente Portugal, Espanha, França e Inglaterra. Quase
sempre voltam fascinados com as experiências e as novas amizades,
motivados a manter a chama da vida cada vez mais acesa.
DOCE FILANTROPIA
Por quase três décadas, a história de um grupo de senhoras confundiu-se
com a própria história da Sociedade Espanhola de Beneficência. Elas
eram integrantes da "Colméia", uma organização que prestou um belo
trabalho à SEB quando esta ainda enfrentava dificuldades para çrescer e
estabilizar-se.
Quem guarda na memória cada detalhe da trajetória da Colméia é
Margarida Comes, de 90 anos de idade e 66 como sócia da Beneficência.
Conversar com ela é voltar no tempo, resgatando o empenho de mais de 70
mulheres em ser útil ao ser humano, especialmente os mais
necessitados.
Como nasceu a Colméia?
Margarida: Lá pelo ano de 1963, a Benefiência estava
atravessando um período delicado. Então, um grupo de senhoras decidiu
apoiá-la, reunindo-se uma vez por semana, à tarde, para costurar
lençóis e fronhas, fazer panos reforçados para as macas etc. Umas
levavam agulhas, outras traziam linhas, alguém comprava os tecidos e
assim por diante. Até as máquinas de costura foram doadas.
De que forma a senhora ingressou na Organização?
Margarida: Fui convidada pela minha cunhada, esposa de
um espanhol. Na verdade, não tenho qualquer parentesco com espanhóis e
sou viúva de um brasileiro. Mas sempre fui sócia da SEB e confio em sua
equipe médica. Até meu parto foi feito no Hospital Espanhol.
Quem sugeriu o nome do grupo?
Margarida: Certa vez, a chefe da costura, Cacilda Garcia, fez o seguinte comentário ao encontrar um bando de mulheres conversando na portaria do Hospital, inclusive eu: "Que zumbido é esse? Vocês até parecem umas abelhinhas!"
Em tantos anos de trabalho voluntário , que atividades a
Colméia desenvolveu?
Margarida: Inúmeras. Fazíamos eventos para arrecadar
fundos, sempre em parceria com a direçâo da SEB. A primeira festa da
Colméia foi no sítio de Emília Parames, a primeira presidente do grupo,
e teve a presença de várias autoridades nacionais e estrangeiras. Com o
dinheiro arrecadado, conseguimos pintar a fachada do hospital. Em uma
outra ocasião, transferimos a lavanderia para o térreo e adquirimos
algumas máquinas. Na época da fundação da Colméia, o presidente da SEB
era José Lage.
Como se dava o relacionamento entre a Beneficência e o grupo
de senhoras?
Margarida: Muito amistoso. Até a esposa do presidente,
Neide, pertencia à Colméia. A SEB nos deu, inclusive, uma grande sala
para funcionar como sede do nosso trabalho. O Lage costumava dizer, em
tom de brincadeira, que éramos trabalhadoras exemplares, pois pagávamos
para trabalhar! Ele chegou a conceder uma espécie de diploma de honra
ao mérito para cada integrante da Colméia.
Quais são as suas grandes lembranças?
Margarida: São tantas... Fazíamos o Natal dos idosos, que,
naqueles tempos, ainda se abrigavam na SEB; visitávamos os doentes;
buscávamos o apoio financeiro de pessoas e instituições; realizávamos
chás beneficentes etc. Nesta luta, devemos destacar a grande atuação da
nossa eterna presidente Emília Parames e da primeira coordenadora da
Colméia, Amália Conde, mãe do ex-prefeito Luiz Paulo Conde.
Que funções a senhora desempenhou na Colméia?
Margarida: Fiz de tudo, mas, oficialmente, eu era a
secretária. Como morava no bairro de Fátima, perto da SEB, tinha
facilidade de estar sempre por perto. As chaves do almoxarifado ficavam
comigo. Tinha um grande controle do nosso dia-a-dia.
Por que o grupo se dissolveu?
Margarida: Era inevitável. A Beneficência gozava de
uma situação estável e achou por bem dispensar o trabalho das senhoras.
Umas haviam falecido, outras andavam adoentadas, sem contar aquelas que
tinham retornado à Espanha. Mas o saldo da experiência já estava
gravado na história da SEB e, com certeza, vai se perpetuar por mais
algumas gerações. A Colméia apostou na solidariedade.

